A filosofia
é um modo de pensar, é uma postura diante do mundo. A filosofia não é um
conjunto de conhecimentos prontos, um sistema acabado, fechado em si mesmo.
Ela é, antes de mais nada, uma prática de vida que procura pensar os acontecimentos
além da sua pura aparência. Assim, ela pode se voltar para qualquer objeto. Pode
pensar a ciência, seus valores, seus métodos, seus mitos; pode pensar a religião;
pode pensar a arte; pode pensar o próprio homem em sua vida cotidiana. Uma história
em quadrinhos ou uma canção popular podem ser objeto da reflexão filosófica.
A filosofia é um jogo irreverente que parte do que existe, critica,
coloca em dúvida, faz perguntas importunas, abre a porta das possibilidades,
faz-nos entrever outros mundos e outros modos de compreender a vida.
A filosofia incomoda porque questiona o modo de ser das pessoas, das
culturas, do mundo. Questiona as práticas política, científica, técnica,
ética, econômica, cultural e artística. Não há área onde ela não se meta, não
indague, não perturbe. E, nesse sentido, a filosofia é perigosa, subversiva,
pois vira a ordem estabelecida de cabeça para baixo.
Podemos, agora, perceber a razão da condenação de Sócrates na
Antigüidade ou da proibição da leitura de Karl Marx no Brasil pós-64. Ambos
foram (e são, ainda) subversivos, perigosos, pois, ao indagar sobre a realidade
de sua época, fizeram surgir novas possibilidades de comportamento e de relação
social. Do ponto de vista do poder estabelecido, mereceram a morte e/ou o
banimento de suas obras.
O
pensamento filosófico
Quando a filosofia surge, entre os
gregos, no século VI a.C, ela engloba tanto a indagação filosófica propriamente
dita quanto o que hoje chamamos de conhecimento científico. O filósofo
teorizava sobre todos os assuntos, procurando responder não só ao porquê das coisas, mas, também, ao como, ou seja, ao funcionamento. É por
isso que Euclides, Tales e Pitágoras são filósofos e dedicam-se também ao estudo
da geometria. Aristóteles, por sua vez, debruça-se sobre problemas físicos e
astronômicos, na medida em que esses problemas interessam à cultura e à
sociedade de sua época.
É só a partir do século XVII, com Galileu e o aperfeiçoamento do
método científico (ver Cap. 7), fundado na observação, experimentação e
matematização dos resultados, que a ciência começa a se constituir como forma
específica de abordagem do real e a se destacar da filosofia. Aparecem, pouco
a pouco, as ciências particulares, que investigam a realidade sob pontos de
vista específicos: à física interessam os movimentos dos corpos; à biologia,
a natureza dos seres vivos; à química, as transformações das substâncias; à astronomia,
os corpos celestes; à psicologia, os mecanismos do funcionamento da mente humana; à sociologia, a organização
social etc.
O conhecimento é fragmentado entre as várias ciências, pois cada uma
se ocupa somente de uma pequena parte do real. As afirmações de cada uma delas
são chamadas juízos de realidade, uma vez que se referem aos fenômenos e pretendem
mostrar como estes ocorrem e como se relacionam com outros fenômenos. De posse
desses dados sobre o funcionamento dos fenômenos naturais e humanos, torna-se
possível prevê-los e controlá-los.
A filosofia trata dessa mesma realidade, mas, em vez de fragmentá-la
em conhecimentos particulares, toma-a como totalidade de fenômenos, ou seja,
considera a realidade a partir de uma visão de conjunto. Qualquer que seja o
problema, a reflexão filosófica considera cada um de seus aspectos,
relacionando-o ao contexto dentro do qual ele se insere e restabelecendo a integridade
do universo humano. Do ponto de vista filosófico, por exemplo, é impossível
considerar a inflação brasileira somente a partir de princípios econômicos. É
preciso relacioná-la com interesses de classes, interesses políticos,
interesses sociais. Um país economicamente instável é um país política e
socialmente instável. À ciência econômica interessa somente verificar como a
inflação funciona para poder controlá-la, sem se incomodar com os reflexos que
esse controle possa ter sobre a sociedade.
É por isso que, sem desmerecer o conhecimento especializado buscado
pelas várias ciências, defendemos a necessidade da reflexão filosófica,
reflexão esta que faz a crítica dos fundamentos de conhecimento e da ação
humanos. Cabe ao filósofo refletir sobre o que é ciência, o que é método
científico, sua validade e limites. A ciência é realmente um conhecimento
objetivo? O que é a objetividade e até que ponto um sujeito histórico — o
cientista — pode ser objetivo? Cabe ao filósofo,
também, refletir sobre a condição humana atual: o que é o homem? o que é liberdade? o que é
trabalho? quais as relações entre homem e trabalho? etc. Nem mesmo a escola
foge ao crivo da reflexão filosófica: para que exista, é necessário que
partamos de uma visão de homem como ser incompleto, portanto educável. Para
sobreviver, os animais não precisam ser educados, pois guiam-se pelos
instintos. Só os "educamos", isto é, domesticamos, para acomodá-los
às nossas necessidades humanas. O caso dos homens é diferente. Mas para que o
ser humano é educado? Para o pleno exercício da liberdade e da responsabilidade
ou só para se manter dentro da ordem estabelecida? Em outras palavras,
educamos para que cada homem saiba pensar por si próprio ou para que saiba
aceitar as regras que outros pensaram para ele?
A filosofia quer encontrar o significado mais profundo dos
fenômenos. Não basta saber como funcionam, mas o que significam na ordem geral
do mundo humano. A filosofia emite juízos de valor ao julgar cada fato, cada
ação em relação ao todo. A filosofia vai além daquilo que é, para propor como
poderia ser. É, portanto, indispensável para a vida de todos nós, que desejamos
ser seres humanos completos, cidadãos livres e responsáveis por nossas
escolhas.
Assim, o filosofar é uma prática que parte da teoria e resulta em
outras teorias.
Características
do pensamento filosófico
O trabalho
do filósofo é refletir sobre a realidade, qualquer que seja ela, descobrindo seus significados mais
profundos.
Como isso é feito?
Em primeiro lugar, vamos estabelecer o que é a reflexão. Refletir é
pensar, considerar cuidadosamente o que já foi pensado. Como um espelho que
reflete a nossa imagem, a reflexão do filósofo deixa ver, revela, mostra, traduz
os valores envolvidos nos acontecimentos e nas ações humanas.
Para chegar a essa revelação, a reflexão filosófica, segundo
Demerval Saviani, deve ser:
• Radical — ou seja, chegar
até a raiz dos acontecimentos, isto é, aos seus fundamentos; à sua origem, não
só cronológica, mas no sentido de chegar aos valores originais que
possibilitaram o fato. A reflexão filosófica, portanto, é uma reflexão em
profundidade.
• Rigorosa — isto é, seguir
um método adequado ao objeto em estudo, com todo o rigor, colocando em questão
as respostas mais superficiais, comuns à sabedoria popular e a algumas
generalizações científicas apressadas.
• De conjunto — como já foi
dito anteriormente, a filosofia não considera os problemas isoladamente, mas
dentro de um conjunto de fatos, fatores e valores que estão relacionados entre
si. A reflexão filosófica contextualiza os problemas tanto verticalmente,
dentro do desenvolvimento histórico, quanto horizontalmente, relacionando-os a
outros aspectos da situação da época.
Assim, embora os sistemas filosóficos possam chegar a conclusões
diversas, dependendo das premissas de partida e da situação histórica dos
próprios pensadores, o processo do filosofar será sempre marcado por essas
características, resultando em uma reflexão rigorosa, radical e de conjunto.
( Texto do Livro Temas de Filosofia de MARIA LÚCIA DE ARRUDA ARANHA)
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